História do Leite

Alem de suas conotações religiosas, o leite foi utilizado em algumas civilizações como medicamento ou com finalidades cosméticas. O médico grego Hipócrates (400 a.C.) considerado o pai da Medicina, recomendava uma dieta de leite de vaca contra envenenamentos.
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Alem de suas conotações religiosas, o leite foi utilizado em algumas civilizações como medicamento ou com finalidades cosméticas. O médico grego Hipócrates (400 a.C.) considerado o pai da Medicina, recomendava uma dieta de leite de vaca contra envenenamentos. Misturado com água, vinho, mel ou outros ingredientes, era utilizado para curar afecções inflamatórias. Também é dessa época a primeira menção negativa ao leite, descrevendo, com relativa precisão, um quadro de diarréia (por questão higiênica ou até de intolerância à lactose): “Leite é ruim para pacientes com febre, cuja barriga está distendida e roncando. Na Ásia Menor, devido às suas propriedades hidratantes, junto com pomadas e ungüentos, era utilizado em doenças de pele.

Dr. Edson Credidio - Médico Nutrólogo, Doutor em Ciências de Alimentos pela Unicamp, Título de Especialista em “Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos” pela Unicamp, Coordenador do Sistema Nutrosoft, Perito Judicial em Análise de Alimentos e membro da Associação dos Peritos Judiciais do Estado de São Paulo, Membro da International Colleges for the Advancemente of Nutrition - USA, Membro da American College of Nutrition – ACN – USA, Membro do Comitê Científico do Food Ingredients South America, Membro Titular da Academia Latino – Americana de Nutrologia e Autor com dezesseis livros publicados.

Pompéia, esposa do imperador romano Nero (37-68 d.C.), costumava tomar longos banhos com leite de jumentas, acreditando em sua ação rejuvenescedora. A rainha egípcia Cleópatra, por volta da mesma época, cultivava o mesmo hábito. Nessa época, devido aos problemas sanitários, o leite passou a ter uma imagem negativa entre os romanos, que designavam por bárbaros aqueles povos que consumiam somente carne e leite, contrapondo-se aos civilizados, que consumiam produtos com maior grau de elaboração, como vinho e azeite de oliva. Documentos romanos do século 1 de nossa era apresentam diversas receitas à base de leite, misturado com menta, cebola, orégano e coentro, para produção de uma bebida tônica. Para os tísicos, recomendava-se leite humano, e, para inflamações de garganta, gargarejos com leite quente, malva e sal. No século 2, o médico romano Galeno descreve com clareza um quadro de intolerância à lactose: “O leite não deve ser dado a todos, mas àqueles que o aceitam bem”.A aproximação do homo sapiens com o leite ocorreu provavelmente com as cabras, fato testemunhado em desenhos rupestres, datados de 20.000 a.C., nos quais as cabras são representadas como animais comumente caçados. Existe uma controvérsia se este fenômeno teria ocorrido na Mesopotâmia, por volta de 10 mil anos atrás, ou mais a leste, na Ásia.O primeiro registro histórico e concreto da utilização do leite como alimento é uma peça encontrada em Tell Ubaid, atual Iraque, datada de 3100 a.C., conhecida como Friso dos ordenhadores. Nela, podem ser constatadas não só a ordenha mas também a filtragem do leite. Também os egípcios, a partir de 1000 a.C., como mencionado anteriormente, deixaram registros de utilização do leite com conotações religiosas. O historiador grego Heródoto, em torno de 500 a.C., relata a existência de um pão preparado com grãos de lótus misturados com leite e água que, quando comido quente, era leve e de fácil digestão, e a utilização, por tártaros, de grande quantidade de leite de éguas, que seria consumido com gafanhotos, secos e moídos. Entre os etruscos, por volta de 400 a.C., as cabras e os carneiros eram usados como fonte de leite, carne e lã. Do leite, esse povo fazia diferentes tipos de queijo. Há também indicações , tumba dos relevos de Cerveteri, de que esse povo já utilizava o ralador de queijo. Entre gregos e romanos, praticamente no início da era cristã, cabras e ovelhas continuavam a ser fonte de leite, enquanto os bovinos eram utilizados como tração animal. Costume tão arraigado que se menciona que o imperador romano Julio César estranhou a utilização de manteiga de origem bovina entre os bárbaros. A ascensão do queijo e a dura convivência do leite com as condições sanitárias da Idade Média. Com as invasões bárbaras e a queda do império romano ocidental, por volta do século 5, uma nova estrutura socioeconômica surgiu na Europa. A produção de gêneros agrícolas destinava-se, sobretudo, à sobrevivência, não tendo expressão na parca atividade comercial da época. Os rebanhos bovinos continuavam destinados à tração animal ou ao corte, mas o leite fluido, talvez por influência dos bárbaros do norte, era utilizado no consumo caseiro das famílias, porém, em função da péssima condição de higiene reinante, nunca era consumido fora do estrito local onde era produzido, não participando das escassas relações de troca da época. Vale a menção de que coube aos mosteiros a manutenção e o aprimoramento das técnicas de criação de gado leiteiro, bem como a manufatura de queijos. Remontam dessa época os queijos livarot e o maroilles. Alguns historiadores acreditam que, por volta do ano 1000, os vikings noruegueses teriam introduzido gado bovino no continente americano, hipótese pouco crível considerando-se as condições tecnológicas de suas embarcações. A partir do século 12, a atividade comercial volta a se intensificar na Europa e os queijos curados, mais duráveis, passam a ter valor comercial importante. Em 1267, na região de Doubs, na França, nasceram os primeiros “fruitieres” ,antepassados das cooperativas de laticínios, que produziam enormes queijos, conhecidos como beaufort, emental, comté. Do lado bizantino, mais civilizado, o leite continuou a ser consumido na forma de coalhada. O cronista francês Bertrandon de La Broquiere, em 1432, registrou a existência da oxigalata, grande bolo de leite coalhado que alguns tinham o hábito de consumir misturado com alho e que era vendido desde o século 12 pelas ruas de Constantinopla.Bovinos, cabras e ovelhas participaram das Grandes Navegações, no século 16, para fornecimento de carne e leite, e o queijo fazia parte dos suprimentos regulares das embarcações.A introdução do café na Europa usou como veículo o leite. No século 17, a mistura de café com leite era popular, enquanto as classes mais abastadas preferiam o café puro. Tal hábito continuaria no século seguinte. A nobreza do leite não teve seu consumo restrito à fome dos homens. Sua imagem transcendeu e ganhou os altares, evocando diferentes crenças. A mais conhecida vem da mitologia romana, segundo a qual uma loba teve a missão de amamentar Rômulo e Remo, os fundadores de Roma. Tal dieta lhes deu força e resistência na perseguição imposta pelo rei Amulio. Já no antigo testamento, o profeta Moisés faz alusão à terra prometida, como aquela em que corriam leite e mel, como metáfora para descrever a terra fértil de Canaã. Entre os hebreus, o leite também sempre foi símbolo de vida, fertilidade e fartura.Outra utilização muito atual, mas nada recente, aponta o leite em produtos medicinais e cosméticos. Há registros datados de 400 anos A.C., quando o grego Hipócrates, considerado o pai da medicina, receitava leite fresco de vaca como antídoto para casos de envenenamento. De seu receituário, constavam também misturas com outros líquidos, como vinho e mel, para curar inflamações, febre e infecções da garganta. Já no império romano, descobriu-se que o leite tinha propriedades rejuvenescedoras.  Um exemplo é Pompéia, a esposa do imperador Nero, que tomava prolongados banhos de leite de jumenta para ficar mais jovem e bela, segundo relato do livro "El mundo de la leche" (P. Mastellone).O uso do leite como alimento é antigo. Pesquisadores afirmam que o hábito tem mais de 10 mil anos, sendo que seu aproveitamento foi se ajustando às diferentes culturas. O leite é o primeiro alimento humano e um alimento excepcional, que desempenhou, desde sempre, um papel de destaque na alimentação humana. Digamos que o leite, na sua mais ampla configuração de produto de excelência, está presente, desde a primeira hora, na vida dos homens, nos seus  ritos e mistérios, na arte e na estética como nos textos sagrados e antigos onde sempre resplandecem a grandeza e a sabedoria. O leite está na base da alimentação humana. Imediatamente após o nascimento é, durante vários meses, o único alimento que reúne todos os nutrientes necessários à subsistência. O leite materno foi sempre considerado o mais indicado pois, além de ser riquíssimo em nutrientes, transporta também uma poderosa carga emocional, sendo através dele que o ser humano experimenta os seus primeiros contactos com o mundo: o vinculo mãe-filho (que se estabelece durante a amamentação), o gosto, o tacto, o cheiro. Não obstante, durante séculos as mães oriundas das elites sociais preferiram entregar os filhos a outras mulheres: as amas de leite. Este hábito durou até o século XX, apesar de todas as críticas e riscos. O consumo de leite animal em alimentação humana remonta a tempos pré-históricos, concretamente ao Neolítico, e constitui um fato da civilização que marca o início do sedentarismo. Na antiguidade clássica o consumo de leite estava limitado à utilização de leite fresco em virtude deste ser um produto perecível. A dificuldade de conservação deste alimento era, portanto, um óbice ao seu consumo mais abrangente pela população. Porém o leite tinha uma larga utilização na culinária, sendo um dos componentes de inúmeros pratos e doces, como o famosíssimo manjar branco, os manjares exóticos com registro no livro de cozinha da infanta D. Maria, no Tratado de Domingos Rodrigues e, já no séc. XVIII, em Lucas Rigaud e na sua moderna visão da gastronomia portuguesa. A partir do sécu­lo XIX, o leite passou a entrar, de forma sistemática, na con­fecção de pratos de carne, de peixe, de legumes e até de sopas. Ao mesmo tempo, o café com leite vulgarizou-se como acompanhamento privilegiado de refeições. Concomitantemente, ao longo dos séculos, o leite foi considerado também um alimento possuidor de capacidades  curativas diversas merecendo, por isso, referências nas obras de médicos célebres como Dioscórides, Hipócrates e Galeno. Ele foi utilizado, de fato, na prática clínica como benéfico, adjuvante e até terapêutico durante muitos séculos, preservando ainda, atualmente, excelente reputação. No próprio século XX é utilizado, por exemplo, nas dietas dos doentes internados, na terapêutica de úlceras do estômago, etc. Por fim, na própria história da poesia, da literatura, da arte e até na religião há referências enaltecedoras ao leite, o que traduz não só a sua presença no quotidiano como a sua elevada valorização como alimento. De fato, sabemos, por exemplo, como são abundantes nos textos proféticos e bíblicas as referências a este delicioso produto: ”Dar-te-ei, a ti, e aos que ouvirem a minha voz, a terra onde correm arroios de leite e de mel” disse Deus a Moisés. Josué não deixa, igualmente, de sublinhar para a História e o tempo longo: “Durante os quarenta anos de marcha por aquela vastíssima solidão do deserto, vieram a morrer os que não tinham ouvido a voz do Senhor, e aos quais ele antes tinha jurado que lhes não mostraria a terra que manava o leite e o mel”. No conhecido livro das Lamentações de Jeremias, aí mesmo se fala nas mulheres mais alvas do que a neve, mais nítidas do que o leite, assumindo-se, no tempo longo, este conceito de beleza de que a nossa própria literatura medieval se tornará em eco permanente requerendo da mulher que seja clara e branca como o linho e como o leite; leite que, aliás, também desempenhou, juntamente com o mel, um lugar de relevo nos cuidados de beleza, citado por autores latinos que muito escreveram sobre regras e artifícios do amor. Maomé teria dito que “sonhar com leite, é sonhar com a ciência ou com o conhecimento”. No séc. XVI a pintura portuguesa revela-nos o martírio de S. Catarina que é decapitada pelo carrasco, notando-se que é leite e não sangue o líquido que jorra do seu corpo. O que dá um sentido místico a esse primeiro elemento em que a vida se condensa e em que todos os outros existem em estado potencial e é símbolo da abundância, da fertilidade, do conhecimento e da imortalidade. A literatura portuguesa não esquece tão prodigioso alimento. Gil Vicente cita-o em diversos autos e comédias. E basta que deixemos correr a memória pela excelente prosa de Camilo que punha os abades a comer malgas de sopas de leite servidas por criadas e amantes; pelas referências tão repetidas e sugestivas de Eça de Queiroz, etc.A evolução tecnológica permitiu, no século XX, pasteurizar e ultrapasteurizar sem retirar benefícios ao leite o que permitiu facilitar-lhe o acesso e conduziu à massificação do seu consumo não só como alimento de validade curta, mas também de média ou longa duração. Atualmente o leite ocupa um lugar absolutamente insubstituível na alimentação humana, em todas as faixas etárias. Tem uma riqueza nutricional e uma relação custo benefício ímpares. É uma fonte de proteína de alto valor biológico (ricas em aminoácidos essenciais) tão preciosa como a carne, o peixe ou os ovos; é rico em minerais (e a maior fonte de cálcio de elevada biodisponibilidade) e em vitaminas. Tem, ainda, um baixo aporte calórico (obviamente tanto menor quanto menor o teor de gordura que tiver). Por fim, é incomparavelmente versátil podendo ser consumido de várias formas (batidos de fruta, milk-shakes, com cereais, simples, com aromas, etc.).Ao Brasil, foi trazidos pelos portugueses, que desembarcaram por aqui com algumas vacas, o que significou uma grande novidade para os indígenas nativos. A mesma surpresa foi causada pelos conquistadores espanhóis ao ocuparem o continente. Há registro de que as vacas leiteiras perdiam sua nobre função quando oferecidas às tribos do continente, já que eram abatidas e devoradas tão logo os invasores se afastavam dos animais.Na cidade de São Paulo, foram os portugueses, há 100 anos, que montaram o primeiro sistema de produção e comércio de leite. Eram os chamados "vaqueiros", que passeavam com os animais pelas ruas à procura de consumidores, de porta em porta, os quais assistiam à ordenha do leite a ser bebido quase em seguida. Décadas depois, a legislação, cuja natureza é a mesma que controla hoje a venda de leite clandestino em muitas cidades brasileiras, barrou a ação de tais vendedores, obrigando-os a transferir esse mesmo comércio para dentro das padarias, transformando os antigos "vaqueiros" nos conhecidos padeiros.Uma característica do leite brasileiro era sua distribuição, feita em carroças puxadas por cavalos. Todos os grandes laticínios tinham sua frota devidamente identificada. O historiador Luis da Câmara Cascudo calcula que, por volta de 1950, havia cerca de 100 mil carroças realizando tal função, cumprindo horários fixos e regulares todos os dias da semana. J. C. Dias observa que várias cidades norte-americanas também eram adeptas do mesmo meio de transporte. Só que lá, para a venda noturna de leite, se exigia que as carroças tivessem pneus, e os cavalos, ferraduras de borracha, para não atrapalhar o sono da população.