O ovo é o alimento mais versátil e mais antigo consumido pelo homem. Há indícios de que sua utilização na alimentação teve início em torno de 3200 a.C., época em que se estima que tenha acontecido a domesticação da galinha. Ao longo do tempo o ovo passou de ingrediente de destaque em grandes banquetes das civilizações mesopotâmicas, como alternativa de alimentação em mosteiros na Idade Média, onde a criatividade dos cozinheiros criou uma grande variedade de formas de se preparar o ovo, vilão da saúde até ser absolvido mais recentemente por estudiosos de suas propriedades nutricionais.
Dr. Edson Credidio - Médico Nutrólogo, Doutor em Ciências de Alimentos pela Unicamp, Título de Especialista em “Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos” pela Unicamp, Coordenador do Sistema Nutrosoft, Perito Judicial em Análise de Alimentos e membro da Associação dos Peritos Judiciais do Estado de São Paulo, Membro da International Colleges for the Advancemente of Nutrition - USA, Membro da American College of Nutrition – ACN – USA, Membro do Comitê Científico do Food Ingredients South America, Membro Titular da Academia Latino – Americana de Nutrologia e Autor com dezesseis livros publicados.
Além do uso culinário, o ovo também é utilizado pela indústria de cosméticos, serviu de inspiração para a criação de jóias como as desenhadas pelo joalheiro russo Karl Fabergé e carrega um grande simbolismo em várias partes do mundo. Vai desde assegurar a fertilidade à mulher recém-casada na França, símbolo da criação da vida para gregos e persas, desejo de boa sorte e felicidade ao recém-nascido na China e renascimento para os católicos na época da Páscoa. O ovo tem representado várias coisas ao longo da história: mágica, mistério, medicamento, alimento, presságio. Ele acabou por se tornar um símbolo universal de celebrações em vários lugares do mundo e tem sido tingido, pintado, adornado e embelezado em celebração ao seu simbolismo especial. Antes do ovo se tornar tão ligado à páscoa cristã, ele foi usado em muitos festivais e ritos de primavera por povos antigos. Os Romanos, Gauleses, Chineses, Egípcios e Persas todos usavam o ovo como símbolo do universo. A muito tempo os ovos vem sendo tingidos e trocados como presente de forma a honrar os amigos. Nos tempos pagãos o ovo representava o renascimento da Terra. O longo e terrível inverno havia passado, a Terra explodia de vida e renascia assim como do ovo "miraculosamente" explodia uma nova vida. Como conseqüência, as pessoas criam que o ovo tinha poderes especiais. Ele era enterrado na fundação de prédios para os proteger de maus agouros, as mulheres romanas grávidas carregavam um ovo consigo por um tempo, para depois usá-lo a fim de descobrir o sexo do bebê; as noivas francesas pisavam em um ovo antes de atravessar o umbral de sua nova casa. Com o advento do cristianismo, o simbolismo do ovo mudou entre os povos. Agora não mais representava o renascimento da natureza, mas a nova vida do homem. Os cristãos abraçaram o simbolismo do ovo e o ligaram à tumba de onde Jesus ressuscitou. Antigas lendas polonesas misturaram folclore e crenças cristãs e por fim acabaram por juntar definitivamente o ovo às celebrações da páscoa. Uma das lendas o liga à virgem Maria. Ela conta que Maria deu ovos aos soldados à beira da cruz no desejo de entretê-los e eles serem menos cruéis. Como Maria estava chorando, suas lágrimas caiam sobre os ovos, pintando-os com pontinhos e cores brilhantes. Outra lenda polonesa conta de quando Maria Madalena foi ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. Ela teria consigo uma cesta de ovos para servir como lanche. Quando ela chegou ao sepulcro teve uma surpresa: as cascas branquinhas haviam ganhado todas as cores do arco-íris.Ovo foi utilizado com os mais diferentes sentidos na História, com o intuito de demonstrar e definir conceitos e expressões como podemos ver a seguir:
Ovo de Colombo: É uma expressão usada corretamente para exprimir uma coisa fácil de realizar, mas em que não se pensou antes de a ver efetivamente realizada. A expressão deve-se ao fato de Cristóvão Colombo ter provado, para espanto de todos os presentes, que seria possível equilibrar um ovo em pé, valendo-se de uma solução tão simples quanto a de o colocar na posição, esmagando uma das extremidades. O arrojado navegador teria recorrido a esse artifício para enfrentar a inveja e a maledicência de seus adversários. Estes costumavam alegar que a América seria descoberta mais cedo ou mais tarde, “que era uma questão de tempo e, para isso, bastaria refletir”. Esse argumento mal escondia a intenção de diminuir o mérito de Cristóvão Colombo.Conta-se que, certo dia, estando Colombo à mesa de um nobre espanhol, interrompeu a discussão, travada em torno da sua descoberta e, pedindo um ovo, disse: “Qual de vós, senhores, será capaz de manter este ovo em pé sobre uma das suas extremidades?” O ovo circulou, de mão em mão, e foi novamente entregue a Cristóvão Colombo, sem que ninguém tivesse resolvido o problema. O navegador genovês, segurando o ovo calmamente, bateu-o sobre a mesa, esmagando uma das pontas, ficando desta forma em equilíbrio. “Não é difícil”, disse um dos convivas, ao que Colombo retorquiu com ironia: “Sem dúvida, basta refletir”. A história é boa, mas subsistem controvérsias sobre a primazia do recurso do ovo, enquanto este se tenha prestado para provar coisas diversas. Assim, há quem garanta não ter sido nada original a demonstração de Colombo. Um século antes, o arquiteto e ourives florentino Felippo Brunelleschi (1377-1444), considerado na história da arquitetura, como o primeiro dos renascentistas, teria utilizado o mesmo recurso, quando disputou com outros a construção da cúpula da Catedral de Florença. Os planos apresentados pelos demais baseavam-se em processos góticos, projetando a construção da cúpula sobre pilares e arcos, apoiando-a em suportes internos. Brunelleschi, que havia estudado em Roma as obras da antiguidade libertando-se dos velhos moldes da arte gótica, assegurava que a cúpula seria fixada sem auxílio de suportes e que, por si mesma, se manteria na mais perfeita solidez e equilíbrio.A proposta provocou indignada reação da assembléia de arquitetos e engenheiros, que afrontados pela imaginação revolucionária do florentino, trataram de condená-la como inexequível e extravagante. Mas Brunelleschi não desistiu do seu projeto, porque havia idealizado sobre sólidas bases que a própria Natureza sustentava. E para provar que o seu plano poderia ser realizado, pegou num ovo e, quebrando uma das extremidades, colocou-o de pé. Assim demonstrou à platéia de arquitetos que uma cúpula poderia ser mantida sem apoio interno, mesmo que a sua base tivesse circunferência inferior à da parte central, como acontece no ovo. Vitorioso, dedicou-se a construir a enorme cúpula auto-sustentada, de teto duplo, no alto da imensa catedral de Santa Maria del Fiore, o Duomo. Como era também ourives soube adaptar engrenagens de relógios às máquinas que ergueram as paredes do Duomo.
Ovo de Orfeu : Na mitologia grega, Orfeu nasceu nas vizinhanças do monte Olimpo, frequentado pelas Musas, onde passeava e cantava ao som da sua lira. Era, poeta, cantor e músico, sendo considerado o inventor da cítara. O seu canto era tão melodioso, que os homens mais brutais se tornavam afáveis, as feras seguiam-no mansamente e as plantas curvavam-se à sua passagem. Fundador dos mistérios de Elêusis, inspirou uma rica literatura esotérica, de que faz parte o símbolo misterioso do ovo de Orfeu, que designava a fonte da vida e o princípio de todos os seres. Dizem que Orfeu não se alimentava de carne nem de ovo, por acreditar que este encerrava o próprio dogma cosmogónico que defendeu, o do princípio vital. Segundo a cosmogonia órfica, a Noite envolve um Ovo cósmico, confeccionado no Éter pó Cronos, o Tempo. Desse Ovo saiu Eros, o Amor, que representa também a Luz, sendo o primeiro que nasceu dos deuses. Como gerador de Vida, Eros, nascido do Ovo, deu origem ao nascimento aos deuses e do mundo, antes de ser engolido por Zeus e renascer dele, sob a forma de Dionísio.
Ovo de Osíris: O deus cultivador dos egípcios, a quem foi atribuída a fundação do Egito, seu primeiro rei, pai de todas as colônias e a maior divindade daquele povo. Casado com a própria irmã, Ísis, uma das interpretações do mito conta que, uma vez, Osíris colocou dentro de um ovo duas figuras brancas, símbolo dos benefícios com que contemplaria a humanidade. Ocorre que Osíris era perseguido pelos seus irmãos Set e Tífon, apesar dos estreitos laços consanguíneos que os ligavam. Foi Tífon quem secretamente introduziu doze pirâmides negras no mesmo invólucro que embalava as Graças, que seriam concedidas ao mundo pelo deus. Desde então, as pirâmides de Tífon representam o Mal, companheiro inseparável do Bem. E as duas forças concorrem o cumprimento da lei das compensações, conforme o credo egípcio.
Ovo de ouro do mundo: O Código das Leis de Manu, representação simbólica da criação do mundo segundo os hindus, mencionava que um ser preexistente, Svayambhu, produziu as águas pelo poder do pensamento, onde depositou uma semente na forma de um ovo de ouro. Essa semente continha o espírito de Brahma, que permaneceu nesse ovo por um ano de Brahma (o equivalente a 3.110.400.000.000 de anos humanos). Dividindo o ovo em duas partes, Brahma formou o céu e a terra. Na cosmogonia hindu, Brahma, a divindade suprema, criou todos os seres e os demais deuses a partir da sua própria substância.O mito do ovo de ouro remete também ao do nascimento do Sol, levantando-se sobre as águas e soprando vida com os seus raios a todos os seres e a todas as coisas.
Ovo filosófico: O ovo participa também do simbolismo de todas as transmutação. A tradição alquímica refere-se ao ovo filosófico como à ideia de germe de uma vida espiritual. Núcleo do universo, ele encerra na sua casca os elementos vitais, assim como o vaso hermeticamente fechado contém o composto da obra. (Art et Alchimie; Van Lennep). Um antigo manuscrito hermético anônimo traz o seguinte registro , referente ao ovo filosófico: Eis o que os antigos dizem sobre o ovo: uns chamam-no de pedra de cobre, a pedra da Arménia, outros de pedra encefálica, outros de pedra que não é uma pedra, outros de pedra egípcia, outros de imagem do mundo. O atanor, forno dos alquimistas, era tradicionalmente comparado ao ovo cósmico. O ovo simboliza a sede, o lugar e o sujeito das transmutações alquímicas.
Ovo psíquico: A expressão “saindo da casca do ovo” remete à vida psíquica e à participação do ovo no simbolismo dos valores de repouso, como a casa, a concha, o seio da mãe. Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, no Dicionário de Símbolos, afirmam que, no interior da concha, como no seio simbólico da mãe, funciona a dialética do ser livre e do aprisionado. Dessa doce segurança o ser novo aspira sair: o pintor quebra sua casca macia e quente. O ovo, tal como a mãe, torna-se no símbolo dos conflitos interiores entre o burguês ávido de conforto e o aventureiro apaixonado pelos desafios, que existem, ambos, adormecidos no homem, assim como entre as tendências à extroversão e à introversão.O ovo psíquico refere-se, portanto, ao desabrochar da personalidade, àquele momento em que o indivíduo, sentindo-se fechado no seu universo, decide sair dele, quebrando a sua casca. Aceita o desafio de viver.
Ovo de vento: Os alemães costumam designar com esse nome os ovos anãos, ou seja, os pequenos demais e geralmente desprovidos de gema. É provável que o defeito seja consequência de alguma forma de irritação nervosa da ave, o que provoca a secreção no oviduto das glândulas produtoras da clara e da casca sem a presença da gema.
Ovos decorados: A forma do ovo sempre inspirou os artistas. A casca dele constitui a tela de uma das mais atraentes modalidades de arte popular em muitas culturas. São literalmente inumeráveis as possibilidades de expressão artística nessa superfície. Os ovos podem ser pintados ou coloridos com lápis ou canetas, transformar-se de maneira simples, em carinhas engraçadas, enfeitadas com chapéus fantásticos, ornamentados com penas ou com lantejoulas ou ainda simplesmente tingidos em uma infinita variedade de nuances. Seja como for, a decoração de ovos é um divertimento tanto para as crianças como para os adultos. Os ovos para decorar podem ser completos ou sem conteúdo. Os completos são os mais adequados para as crianças por se mostrarem mais resistentes, enquanto as cascas vazias são mais apropriadas para se fazer uma árvore de ovos ou para um enfeite mais duradouro. Pintadas, as cascas podem conservar-se indefinidamente, sem alterações.É fácil esvaziar um ovo. Em primeiro lugar, deve ser limpo e seco. Depois com uma agulha comum bate-se algumas vezes em ambas extremidades até produzir um pequeno orifício. O furo na extremidade mais larga deve ser maior.Introduzida no ovo, a agulha é orientada para romper a membrana e a gema. Depois, soprando no orifício da extremidade menor, o conteúdo do ovo sairá pelo buraco maior e poderá ser recolhido. Lava-se, então, a casca com água fria de deixa-se secar por escorrimento. Todo o cuidado é pouco para decorar o ovo vazio, porque a casca se torna extremamente frágil.Para tingir os ovos, primeiro lavam-se com uma solução com detergente para a remoção da camada oleosa, de modo que a tinta possa aderir mais uniformemente. As tintas comerciais para ovos são fáceis de encontrar principalmente na época da Páscoa.Os ovos são fervidos durante cerca de vinte minutos com 1 colher (sopa) de vinagre branco para cada tigela de água e qualquer um dos materiais corantes a seguir selecionados, obtendo-se uma ampla diversidade de cores e nuances. As quantidades ficam a critério de cada um. Para se obter um tingimento vermelho da casca, usar beterraba, amora ou rabanete. O alaranjado consegue-se com cascas de cebola; amarelo claro, com laranja ou limão (casca), a “tampa da cenoura, cominho ou semente de aipo; o verde-claro, com folhas de espinafre, o verde dourado, com cascas de maçã amarela; o azul. Com amora em geleia ou folhas de repolho roxo; o bege ou castanho, com café forte, o castanho alaranjado, com pó de chili; o cinza, com caldo de uva vermelha ou de beterraba.Seja qual for a cor escolhida, convém tomar cuidados higiénicos no manuseamento dos ovos inteiros, se se pretende posteriormente comê-los. Se os ovos não vão ser pintados logo depois do cozimento, devem ser guardados no frigorífico. Na hora de pintar, usar água mais morna do que os ovos. Depois de coloridos, devem ser guardados de novo no frigorífico. Se, no uso para ornamentação, os ovos ficarem fora do frigorífico durante muitas horas ou dias, é preferível não os comer.Quando ao conteúdo dos ovos esvaziados, no caso do sua armazenamento, devem ser colocados num recipiente, tomando o cuidado de especificar numa etiqueta o número de ovos. De preferência, devem-se cozinhar esses ovos de imediato.
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